Resenha Histórica

COVÕES
Para além das sugestões que a microtoponímia local vai propondo, parece que se registarão igualmente achados dispersos de artefactos líticos no aro desta freguesia, pois aos mesmos fez já vaga alusão Ana Silva Poiares e, posteriormente e na sua esteira, João Reigota. Tratar-se-á de um ou vários machados de pedra polida, de tradição neolítica, podendo eventualmente relacionar-se o seu aparecimento com a plausível presença de estruturas megalíticas ainda por detectar. Mais recentemente foram encontrados vestígios de ocupação romana  (tegulae, imbrices - cerâmicas) a cerca de 300 metros a nascente da localidade, numa encosta virada a sul sobre a nova variante de Covões, na estrada para Mira". (  A Gândara Antiga, João Reigota).
Para além de Monte Arcado - já citado em fonte documental datada de 14 de Dezembro de 1271, e assim se assumindo como o mais remoto dos lugares com notícia histórica da freguesia - integram ainda o termo da freguesia os povoados Seadouro, Espinheira e, claro está, Covões todos estes de existência noticiada pelo século XIV. Um pouco mais tarde, pelo Numeramento Populacional de 1527, é possivel aferir-se da sua importâcia em termos demográficos, registando os lugares de Môtargado, Covões e Malhada, no seu conjunto, um total de 299 vizinhos.
 
O termo da freguesia de Covões - ou, melhor dizendo, da antiga circunscrição territorial de Monte Arcado - era bem mais abrangente que na actualidade, pois integrava, para além das actuais freguesias cantanhedenses de Febres (Boeiro), Vilamar (Escumalha) e Corticeiro de Cima algumas povoações hoje integradas em freguesias dos vizinhos municípios de Vagos, Oliveira do Bairro e Mira. Um censo de 1757 atribuía a este basto aro uma população que rondaria já as três mil almas, a atender aos 623 fogos arrolados e distribuídos por 40 lugares.
Num mapa quinhentista da autoria de Fernando Alvares Seco, gravado em 1561 e por tal facto considerado por Amorim Girão como a mais antiga representação cartográfica do então reino de Portugal, surge Monte Arcado como uma das principais povoações desta área gandaresa-bairradina, a par de Cantanhede e Cadima. Aquela seria inclusivamente, a antiga designação de uma realidade de tipo concelhio, organização rudimentar - o denominado "Curral do Concelho" (1) que deixaria rasto na toponímia local -, com direito ao exercício de justiça local através de uma representação composta por um juiz, dois louvados, um escrivão e um procurador, cargos de eleição anual proposta pela câmara de Cantanhede.
É provável que esta entretanto perdida autonomia jurisdicional se revestisse de simbologia institucional apropriada, seja através da existência de um pelourinho. Embora não confirmada, subsiste uma asserção proposta por alguns autores, segundo a qual o actual cruzeiro de Monte Arcado, datado por cronograma de 1698, poderia resultar de uma reutilização religiosa de elementos arquitectónicos dessa (suposta) estrutura. Porém, o mais provável é que essa idéia resulte de uma notória confusão popular entre aqueles dois tipos de monumentos, de idêntica feição estrutural.
 
Quanto ao cruzeiro de Covões, esse assume a tipologia característica da sub-região bairradina, surgindo protegido por uma estrutura de cobertura em cúpula de meia laranja, suportada por quatro colunas, estas de fustes cilindricos dotados de caneluras, asssentes sobre altos plintos e com austeros capitéis ao estilo dórico. Nos ângulos do arquitravado entablamento de remate, elevam-se os tipícos pináculos piramidais de cantaria, repetidos em numerosos outros exemplares afins deste género peculiar de singelas construções.
No tocante ao templo paroquial, é este um imóvel de certo interesse arquitectónico cuja primitiva fábrica se julga ser anterior a 1558, já que no seu interior se preservará notável exemplar escultório em pedra de Ançã, representando Santo António, da autoria de João do Ruão e cuja execução se documenta, por aquela mesma data, sob encomenda da Sé de Coimbra, pela quantia orçada de dois mil réis. À mesma centúria respeitarão igualmente as imagens de S. Brás, S. Sebastião e S. João.
 
"A igreja actual já não é a mesma de 1558, pois foi reconstruída no século XVIII mas o Santo António ainda lá está e é considerado o mais milagroso de toda a Gândara, recebendo no dia da sua festa (13 de Junho) grande quantidade de ofertas, na sua maioria pés de porco, a atestar a protecção dispensada pelo santo àqueles animais.
 
Este é, aliás, um dos muitos costumes curiosos que o povo dos Covões mantém, tal como certas regras que acompanham a cerimónia do casamento e algumas práticas da Quaresma, como o cântico das Almas Santas e o Sarra-a-velha que aqui assume um papel de crítica social" (Nelson Correia Borges) .
O Monumento ao Músico surge entretanto como um interessante conjunto escultório em bronze, de execução recente onde se pretendeu prestar homenagem - através das figuras em tamanho natural, de um saxofonista devidamente trajado e de uma criança que parece apreciar, com entusiasmo, o seu desempenho musical - à Sociedade filarmónica local, colectividade que contará já bem mais de um século de existência, já que se viu fundada em 13 de Junho de 1868
 
Fonte: Trechos (alguns resumidos) extraídos do livro Cantanhede honrando o passado, rumo ao futuro... 
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(1) O "curral do concelho" era um recinto vedado, onde se recolhiam os animais domésticos até serem pagos os danos por eles causados em propriedade alheia. Havia-os nas sedes de concelho, mesmo nos de insignificante jurisdição.
 
ÓRGÃO DE TUBOS DA IGREJA DE COVÕES DE 1795
 
Antigo órgão de tubos da nossa igreja O órgão de tubos existente na Paróquia de Covões foi construído pelo organeiro António Xavier Machado e Cerveira, no ano de 1795 e com o número de ordem #46.
O mais notável organeiro português e que maior quantidade de trabalho produziu. Era irmão consaguíneo do grande escultor em madeira, Manuel Machado de Castro e filho de outro organeiro e escultor em madeira, Manuel Machado Teixeira ou Manuel Machado Teixeira de Miranda.
Machado e Cerveira nasceu em 01 de setembro de 1756 na freguesia de Tamengos, pequena povoação pertencente ao concelho de Anadia, diocese de Coimbra. Seu pai era natural de Braga. O nome dos Machados figura no grande órgão que existia no coro do Mosterio dos Jerónimos do lado do evangelho, o qual tinha esta inscrição: “Manuel Machado Teixeira de Miranda o fez e acabou no anno de 1781”.
 
O primeiro órgão completo que Machado e Cerveira construíu e hoje existe em perfeito estado, é o da Igreja dos Mártires.Tem na inscrição a data de 1785 e o número 3 indicando os instrumentos construídos pelo autor até essa data. Talvez ele contasse como números 1 e 2 os do Mosteiro dos Jerónimos.
Depois de ter feito o órgão dos Mártires, Machado e Cerveira ganhou um grande crédito e foi imcumbido de construir todos os órgãos que as igrejas de Lisboa, reedificadas depois do terramoto, tiveram de adquirir; a sua missão nesta especialidade foi idêntica à de Pedro Alexandrino na pintura. Assim é que, com as mesmas dimensões do órgão dos Mártires embora com diferentes frontispícios, produziu sucessivamente os órgãos de S. Roque, Convento da Estrela, convento de Odivelas, Sacramneto, Santa Justa, os três de Mafra, o da Capela Real de Queluz, além de muitos outros menores, como os do Socorro, Santa Isabel, Boa Hora (em Belém), Anjos, S. Tiago, S. Lourenço, ermida da Vitória, Encarnação, etc.
 
Fabricou também muitos instrumentos para diversas igrejas das proximidades de Lisboa, como Barreiro, Lavradio, Coruche, Marvila, Santarém (onde há três, sendo o mais considerável o da Misericórdia), Santa Quitéria de Meca, etc. Igualmente mandou muitos para o Brasil, alguns de grandes dimensões.
Por motivo de ter construído os órgãos de Mafra e Queluz, foi nomeado organeiro da casa real – Organorum Regalium Rector – como ele mesmo se intitulava e condecorado com o hábito de Cristo.
 
Um dos últimos instrumentos produzidos por este laborioso fabricante foi o órgão que existe na freguesia do Barreiro: tem o número 103 e data de 1828, exactamente o ano em que morreu.
 
Machado e Cerveira entrou para a Irmandade de Santa Cecília em 22 de Novembro de 1808, sendo muito considerado nesta corporação. Exerceu com a maior pontualidade e zelo, durante os últimos anos e até poucos meses antes de falecer, o cargo de primeiro assistente, presidindo a todas as sessões da mesa.
Tinha ultimamente oficina e morada numa das propriedades da Casa de Bragança ao Tesouro Velho, creio que a mesma que ocupara seu irmão Machado de Castro. Morreu em Caxias, para onde tinha ido muito doente, em 14 de setembro de 1828, contando 72 anos de idade; foi sepultado nos covaes dos Jerónimos.
 
Também é notável sob o ponto de vista ornamnetal o órgão do Convento da Estrela. É dividido em cinco corpos laterais, porque a pequena distância que separa o coro da abóbada não permitia desenvolvê-lo em altura; os emblemas, festões e figuras inteiras nos remates assim como os finos embutidos nos teclados. Constitui tudo trabalho de muito gosto para se admirar. Tem este órgão dois teclados, quarenta e três registos e sete pedais de combinações. A sua inscrição, manuscrita com letra bastarda muito bem lançada sobre uma prancheta de marfim diz: “Este órgão o fez António Xavier Machado e Cerveira no anno de 1789, Nº 23”.
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(Texto cedido pela AACCC - Associação de Arte e Cultura do Concelho de Cantanhede)
 
FORAL DE COVÕES E SIADOURO EM 1338 POR D. AFONSO IV 
 
Em 23 de Dezembro de 1338, por D. Afonso IV, foi feito novo aforamento 
(existia já um, ou mais, mais antigo) – da herdade de Seadouro e Covões a
Vicente Domingues e a Estevão Domingues.
 
- O que é novo é a ideia de que o Seadouro e Covões seriam uma herdade, teriam portanto um Senhor, ou Fidalgo, algo que em Covões sempre foi posto em causa.
 
No reinado de D. Dinis vemos referências a povoações dentro do termo de Cantanhede. São elas:
- aforamento do Vale do Bispo a João Joanes Baso e outros em 1306
- aforamento de Arrancada a João Joanes Beiçudo e outros, a 25 de Novembro de 1311.
- aforamento da Póvoa da Lomba e seus moradores em 3 de Fevereiro de 1302
Com D. Afonso IV são feitos novos aforamentos na herdade do Arneiro do Ramiro a Afonso Annes e outros, a 23 de Dezembro de 1330
- herdade de Siadouro e Covões a Vicente Domingues e outros e Estevão Domingues, a 23 de Dezembro de 1338
- herdade em Vale da Pedra a Francisco Domingues e sua mulher, em 23 de Dezembro de 1338
-aforamento do Monte Espinheiro a João Domingues em 10 de Outubro de 
1341 e Póvoa do Bispo a João Anne,s a 9 de Outubro de 1341.
Outro  aspecto curioso vê-se no documento de 1231, na venda de uma herdade ao Mosteiro do Lorvão em Cepiis , termo de Coimbra. No século XIII, Sepins ficava no termo de Coimbra ao qual ainda pertencia em 1527, juntamente com o Bolho, Murtede, Vila Nova de Outil, Cordinhã e Outil.
 
Por outro lado Ourentã ficava no termo de Cantanhede segundo as inquirições de D. Afonso II e depois as de D. Afonso III.
 
Pelo lado da Pena veio a confinar com o termo de Ançã a quem aquela povoação pertencia , a partir de 1371.
 
No reinado de D. Afonso IV aparece o juiz de Cantanhede, mas igualmente um juiz de Mira, juiz da Póvoa e juiz de Cadima.
 
O documento de 1342, do reinado de D. Afonso IV, dá-nos importantes 
informações sobre a posse de algumas terras de Cantanhede e Mira, 
definindo aquele reguengo.
 
Extraido do livro GÂNDARA ANTIGA , p. 337 .
Da autoria do prof. dr. João Reigota “A Gândara antiga” – 2000 – Centro
de Estudos do Mar CEMAR
 
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CAMARNEIRA
Camarneira é topónimo de algo rara ocorrência, podendo eventualmente aludir a uma circunstância local relacionada com suposta abundância de produção hortícola leguminosa, já que aquele termo se constituirá como provincianismo que exprimirá, em relação às plantas leguminosas que ostentam expressiva fartura de vagens. 
 
Camarneira é local antigo integrado nos domínios do Frades Crúzios que no tempo da Fundação da Nacionalidade, (D. Afonso Henriques), viviam no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. O nome Camarneira terá vindo de Câmara + areia, pela proximidade que noutros tempos existia com a areia do mar. Depois, pelas alterações linguísticas, ficou Camarneira.
 
Camarneira é a mais recente freguesia do Concelho de Cantanhede. Pertencia, até há poucos anos, à Freguesia de Covões. A freguesia foi criada em 9 de Julho de 1993, por desanexação da vizinha freguesia dos Covões.
Situada no centro-norte do Concelho, dista oito quilómetros da cidade de Cantanhede. É composta pelos seguintes lugares: Camarneira, Carvalheira, Lontro, Areia da Camarneira, Quinta da Camarneira, Quinta do Cedro, Quinta da Alegria, Campanas e Fonte Errada.
 
A agricultura e o pequeno comércio são as principais fontes de rendimento da população. Até ao início dos anos 80 ali se realizou uma importante feira quinzenal, conhecida por “Feira dos Bois”.
 
Em meados deste século Camarneira registou uma época de desenvolvimento associativo e cultural: fundou-se a União Camarneirense, o primeiro clube da localidade, que veio a lançar dois grupos subsidiários - o Recreativo e o Cénico e mais tarde apareceu o Desportivo, de curta duração. Progrediu, no entanto, o "Club", que se transformou na também já desaparecida Associação de Instrução e Recreio da Camarneira.
 
Apesar de a fundação da freguesia registar poucos anos, conta já com uma ampla sede, com posto de enfermagem e Biblioteca.
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QUATERNÁRIO - PRAIAS ANTIGAS (NÍVEL DE 60 - 70m).
Este nível é formado por uma mancha, de direcção NW - SE, que define a extensa plataforma de Amoreira da Gândara-Febres.
De maneira geral, os depósitos que constituem este nível são formados por areias e areões com alguns seixos rolados.
 
Entre Lagoa e Camarneira, localizam-se alguns areeiros. A areia é geralmente branca ou levemente amarelada, bem calibrada, essencialmente siliciosa, com aproximadamente 5% de argila (caulino) e igual quantidade de mica.